terça-feira, 1 de março de 2016

O livro da vida: o Eu e o Outro


por Filipe Olivieri


A filosofia oriental é muito pouco conhecida no Brasil — e até por isso, acaba confinada a círculos esotéricos que deturpam o pouco das traduções que existem do sânscrito para o inglês e o alemão. Nesse sentido, tive a sorte de conhecer o Dr. João Carlos Barbosa Gonçalves, da USP, que faz um trabalho sério na tradução desses escritos e não mantem esses ensinamentos em círculos herméticos e palavras ininteligíveis.

Mas existem muitos paralelos na filosofia ocidental — eu os encontrei principalmente no existencialismo — que acabam por suprir essa deficiência. Particularmente agora vou tratar sobre um desses aspectos, motivado por experiências pessoais, que me parece fundamental para situarmos nossa existência diante do mundo.

Vem da filosofia moderna (do restrito pensamento cartesiano), de que percebemos as coisas através do cógito. Mas não é simplesmente "cógito ergo sum", penso, logo existo. Pensar e perceber o mundo não é o que define a nossa existência. Que seria de um homem só no mundo percebendo as experiências sensíveis e visíveis. É só uma elocubração que faço, é verdade, visto que não tenho nem porte (nem pretensão) acadêmica para falar sobre isso.

Mas cada vez mais, percebo que nossa real existência não está confinada ao cógito, à nossa percepção sensível: está intimamente ligada à experiência do outro. Isso é extra-sensorial. Quando entrecruzamos os olhares, tocamos a mão e a mão, aí acende a faísca da existência (citando livremente Merleau-Ponty). Vou tentar falar sobre isso com minhas próprias palavras e vivências, sem ater-me aos vícios acadêmicos que o Túlio Madson de Oliveira ensinou no texto da Filosofia da Proximidade.

Tenho um vício esquisito: querer conhecer pessoas totalmente diferentes de mim. Já fui levado por esse vício a sentar na rua ao lado de mendigos, ir até o Glicério beber com trabalhadores nordestinos que vivem de carregar caixas ou como vendedores ambulantes. Talvez cansado por viver com pessoas que tinham experiências parecidas com as minhas que eu encontro nos circulos sociais que sempre frequentei. Aprendi muito com isso. Me senti existindo ainda mais.

Vi uma estatística de que, essa semana, o mundo está chegando a sete bilhões de pessoas. O Universo não está tão somente lá no céu: está dentro de cada um dos indivíduos. Quantas vivências, quantas coisas que cada um passou, cada coisa que não pode ser transmitida na íntegra oralmente. Nessa hora, vale sim uma citação que espero não soar pedante:

Quem viaja tem muito que contar", diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições. Se quisermos concretizar esses dois grupos através dos seus representantes arcaicos, podemos dizer que um é exemplificado pelo camponês sedentário, e outro pelo marinheiro comerciante. Na realidade, esses dois estilos de vida produziram de certo modo suas respectivas famílias de narradores. (Walter Benjamin, O Narrador)

Hoje somos bombardeados com notícias de jornais por todos os lados, com romances de auto ajuda, com histórias que não contam nada de si. A morte, que trás sofrimento para quem vive, é fria, é notícia. Cadê a transmissão de experiência nisso? Nada. Cade o contato das pessoas, o ensinamento que cada um pode passar um para o outro? Sumiu.

Existe uma palavra muito banalizada nos círculos esotéricos: tantra. Tantra significa, em tradução livre, tapete, tecer, tecido. Esse tecido não é composto pelas fibras do mundo: é pelas pessoas. Todos intimamente ligados, como um grande organismo que troca sinapses tais quais nossos dendritos. Não à toa precisamos tanto de anti-depressivos atualmente: nosso cérebro já não consegue fazer as sinapses e precisa de um componente químico para continuar a fazê-lo. Mas não há psicotrópico para as relações humanas: essas sinapses estão ficando cada vez mais falhas.

Instituiu-se, com a família e a propriedade, que nossas relações deveriam ficar restritas a um único círculo — o tal do círculo familiar. Quem é de fora é estranho e não deve ser ouvido. Sete bilhões de pessoas e nós só convivemos com pouco mais de 50. O mundo, com toda a sua extensão, fica restrito ao terreno delimitado por uma cerca e outorgado por uma escritura.

Mas há um movimento de resistência, porque a natureza humana não é possível de conter: as redes sociais. As pessoas anseiam por ampliar seus horizontes. Mesmo assim, a sociedade "protege" as relações restritas: quem é do computador não é real. Não podem existir os encontros reais, a troca de olhares, a troca de faíscas.

Percebendo um pouco isso, vi que minhas relações estavam influenciadas por essa idéia de que as pessoas não são universo, são posses temporárias. As relações homem-mulher só visam o sexo. Os universos se encontram, o orgasmo acontece, e cada um segue suas vidas. Não há fusão. Não há troca. Não há faísca. Resolvi então buscar experiências que resultassem em cruzamento real de existências, em construção.

Aí encontrei outro entrave: a influência que esse pensamento exerce sobre mim, exerce sobre todos. As pessoas continuam enxergando as outras como objetos. Mudei minha abordagem: não é mais "vamos sair?", é "vamos viver?". Influenciado ainda por esse pensamento oriental, creio que tudo é maya – do sânscrito, ilusão, mas há uma única coisa real nisso tudo: as fagulhas humanas. Os indivíduos que existem por trás dos indivíduos. Esses encontros, desde o esbarrão na rua, a breve conversa ou o compartilhamento do mesmo leito, esses são reais.

Sabe uma coisa triste que constatei? Quanto mais origem a humilde da pessoa, é mais fácil que isso aconteça. Divido um apartamento com um amigo e nosso maior prazer hoje em dia é cozinhar, para nós e para outros. Nossos amigos, jornalistas, graduados, vividos dentro do que eles chamam de vivência, vêm aqui por causa da festa. Já um manobrista que conhecemos numa barraquinha de espetinho abriu seu coração e só ofereceu sua amizade sincera, sem se importar que nós falemos inglês, espanhol, viajamos o mundo. Estava aqui para desfrutar da nossa companhia. E aí, senti a fagulha da existência.

Sou um cara pessimista, mas ainda acredito que essas coisas mudem. Está na natureza humana mudar. Por isso gosto tanto de viajar (e nisso admiro muito meu amigo Milton Leal): conheço pessoas que nunca vi na vida e nelas descubro um universo novo. Faísca. Existência.

Chega de relações pretensiosas. Chega de conhecer as pessoas em festas. Chega de convidar as pessoas a ter conosco. Tenho pernas, elas me possibilitam andar. Tenho o acaso, ele me possibilita conhecer pessoas. Onde minhas pernas me levarem, lá estarei para conhecer universos novos. E novos narradores que vão me fazer ler o livro da vida. Não existe nada mais rico que as pessoas. Mas infelizmente, também não existe nada mais pobre que as pessoas que não estão dispostas a existir de fato.


via